Desinformação e discernimento informacional

Informações falsas e boatos antecedem a internet, mas as redes digitais ampliaram sua escala e velocidade. Neste estudo, fake news é uma expressão operacional para conteúdos falsos ou substancialmente enganosos apresentados como informações factuais. O instrumento também inclui vídeos sintéticos, prints adulterados, conteúdos verdadeiros fora de contexto e afirmações compostas; por isso, desinformação é o termo mais amplo usado na discussão. Familiaridade, conhecimento prévio, atenção e raciocínio influenciam o julgamento das informações (Lazer et al., 2018; Pennycook e Rand, 2021).

Pergunta de pesquisa e hipótese inicial

Em uma amostra de conveniência recrutada predominantemente em Itajaí, em que medida a confiança autodeclarada na capacidade de reconhecer fake news corresponde ao desempenho real na classificação de conteúdos? Como o desempenho varia conforme idade, características demográficas, hábitos de checagem e meios de informação? A hipótese inicial previa que a maior parte dos respondentes se consideraria capaz de reconhecer desinformação, apesar de apresentar quantidade relevante de erros. Estar bem informado, aqui, significa discernir o conjunto específico de conteúdos apresentados, não dominar todos os acontecimentos públicos.

Objetivo geral e objetivos específicos

O objetivo geral foi comparar a percepção subjetiva de competência informacional com a capacidade efetiva de classificar conteúdos verdadeiros e falsos. Os objetivos específicos incluíram identificar meios usados para se informar; caracterizar hábitos de checagem e compartilhamento; medir reconhecimento de conteúdos; comparar grupos demográficos; examinar diferenças por tema; e discutir contribuições para educação midiática, políticas públicas e autoavaliação. Associações observadas não são interpretadas como causalidade.

Fundamentação teórica

O relatório articula estudos sobre circulação de notícias falsas nas redes (Allcott e Gentzkow, 2017; Shu et al., 2017; Lazer et al., 2018), mecanismos psicológicos de discernimento (Pennycook e Rand, 2021) e intervenções de alfabetização midiática e atenção à precisão (Guess et al., 2020; Pennycook et al., 2021). A UNESCO trata alfabetização midiática e informacional como competência para avaliar fontes; a OMS discute os riscos da infodemia. O trabalho distingue acreditar em uma informação de decidir compartilhá-la. As referências completas estão no relatório original.

Delineamento e recrutamento

Pesquisa quantitativa, exploratória e transversal, realizada por questionários eletrônicos no Google Forms, sem acompanhamento longitudinal ou controle experimental. O recrutamento foi não probabilístico, por conveniência, principalmente em grupos de WhatsApp, ambientes escolares de Itajaí, abordagem presencial e divulgação boca a boca. Esse desenho não permite estimar o nível de informação de toda a população municipal com margem de erro populacional. A coleta continua aberta, conforme confirmação da equipe em 15 de outubro de 2026; os resultados descritos neste portal continuam correspondendo à base consolidada do relatório, sem incorporar automaticamente novos envios.

Participações e caracterização da amostra

A base consolidada registra 645 envios, associados a 499 endereços de e-mail distintos: 309 no formulário Base, 200 no Desafio Misto e 136 em Política & Redes. A unidade principal das análises é a participação, não necessariamente uma pessoa única. A distribuição etária reúne 265 registros de 13–15 anos, 166 de 16–18, 25 de 19–28, 24 de 29–36, 39 de 37–44, 88 de 45–60 e 38 de 61 anos ou mais. A concentração de determinados grupos em versões específicas dos formulários limita comparações entre idades. Endereços distintos não confirmam indivíduos diferentes.

Consentimento e proteção dos participantes

Segundo o relatório, os formulários apresentavam termo de consentimento antes das questões e a pesquisa recebeu autorização institucional do Comitê de Ética do Centro de Estudos e Pesquisas Bom Jesus. Para participantes menores de 18 anos, foi obtida previamente autorização física assinada por responsáveis legais. Na análise, os e-mails permitiram reconhecer participações repetidas entre instrumentos. O portal apresenta resultados agregados e não publica dados pessoais dos respondentes.

Instrumentos de coleta

As três versões originais combinavam perguntas de perfil e comportamento com conteúdos classificáveis: 20 itens na Base, 25 no Desafio Misto e 20 em Política & Redes. Foram investigados faixa etária, gênero, etnia, escolaridade, renda familiar, meios de informação, frequência de checagem, compartilhamento e confiança em detectar desinformação. Os canais de informação podiam ser marcados simultaneamente. Os instrumentos permanecem no Google Forms e suas respostas não são transferidas para este portal.

Conteúdos e validação dos gabaritos

Considerando repetições entre versões, foram examinados 40 conteúdos distintos: manchetes, prints, publicações de redes sociais, vídeos e conteúdos gerados ou manipulados por IA. Foram agrupados em seis temas. A validação priorizou documentos oficiais e fontes primárias, comparação com publicações originais, confirmação independente, rastreamento de imagens e vídeos e verificação de contexto temporal e jurídico. Os gabaritos incluem afirmação, veredito, justificativa, evidência principal, contexto e fontes. Afirmações compostas foram avaliadas como mensagens completas, com ressalvas sobre o formato binário. Consulte o gabarito apenas depois de responder.

Pontuação e normalização

Os participantes podiam responder Verdadeiro, Falso, Não sei, Acho que sim ou Acho que não. Na pontuação original, Acho que sim foi interpretado como verdadeiro e Acho que não como falso. Não sei foi preservado como incerteza e considerado não acerto. Como os instrumentos tinham 20, 25 e 20 itens, calculou-se a porcentagem de acerto de cada participação e depois a média dessas porcentagens, evitando dar peso desproporcional ao formulário mais longo.

Procedimentos de análise estatística

A análise combinou contagens, percentuais, médias, diferenças em pontos percentuais, testes exploratórios de Welch e Fisher e correlações de Spearman. Comparações etárias priorizaram itens idênticos: 11 comuns a Base e Misto, 14 comuns a Misto e Política & Redes e um núcleo de 10 questões políticas. Em algumas análises, o desempenho foi centralizado por combinação de idade e formulário. Isso reduz parcialmente diferenças de composição, mas não equivale a randomização ou ajuste causal. Os valores de p são exploratórios: múltiplos testes e células pequenas exigem cautela.

Resultados e discussão

A média normalizada de acertos foi 65,8%. As médias foram 64,7% na Base, 70,8% no Desafio Misto e 61,0% em Política & Redes. Por tema: IA e manipulação, 79,9%; sociedade e conteúdos virais, 77,1%; saúde e ciência, 74,8%; justiça e segurança, 61,8%; política e eleições, 59,4%; geopolítica e defesa, 56,7%. A confiança positiva foi declarada em 82,6% das participações. Sua associação com desempenho foi pequena e positiva (Spearman ρ≈0,120), diminuindo após centralização por idade e formulário (ρ≈0,071). A frequência autodeclarada de checagem não mostrou associação monotônica clara com os acertos. Esses resultados pertencem à base consolidada de 2026.

Limitações metodológicas

Amostragem de conveniência, participações repetidas, instrumentos de dificuldades distintas e ausência de controle experimental limitam as conclusões. Não houve variável confirmando residência municipal. A ordem dos conteúdos não foi aleatória, os visuais e marcas não foram totalmente padronizados e a opção Não sei chegou a ser desencorajada em versões iniciais. Algumas afirmações eram compostas e alguns prints foram adaptados. Cruzamentos demográficos com poucos registros são apenas exploratórios e não sustentam características inerentes aos grupos. Os resultados não podem ser generalizados para toda Itajaí.

Considerações finais e continuidade

A hipótese não foi confirmada em sua forma mais forte: respondentes mais confiantes tenderam a desempenhar ligeiramente melhor. Foi parcialmente sustentada como problema de calibração, pois alta confiança coexistiu com margem relevante de erro. Não existe um único perfil de pessoa que cai em fake news. Os achados apoiam educação midiática centrada em fontes, evidências e contexto, sem atribuir causalidade a plataformas ou estigmatizar grupos. O relatório propõe instrumentos mais padronizados, maior representatividade e avaliação futura de intervenções educativas. A coleta em andamento deve ser analisada em uma nova versão, preservando os resultados originais.

Referências científicas

Allcott e Gentzkow (2017), Social Media and Fake News in the 2016 Election, DOI 10.1257/jep.31.2.211; Lazer et al. (2018), The science of fake news, DOI 10.1126/science.aao2998; Pennycook e Rand (2021), The Psychology of Fake News, DOI 10.1016/j.tics.2021.02.007; Guess et al. (2020), A digital media literacy intervention increases discernment, DOI 10.1073/pnas.1920498117; Pennycook et al. (2021), Shifting attention to accuracy can reduce misinformation online, DOI 10.1038/s41586-021-03344-2; Roozenbeek e van der Linden (2019), Fake news game confers psychological resistance, DOI 10.1057/s41599-019-0279-9; Shu et al. (2017), Fake News Detection on Social Media, DOI 10.1145/3137597.3137600. A lista integral, incluindo UNESCO, OMS, TSE, Maertens et al. e Zhang e Ghorbani, está nas páginas 21–22 do relatório.